Eleições e política de preço impopular para combustíveis ameaçam açúcar brasileiro

Em um posto de gasolina em São Paulo, Luís Matos enche o tanque de seu carro. Mas, em vez de ir dirigindo para o trabalho, ele vai deixar o carro estacionado até o fim de semana.

“Desde o ano passado, tenho tentado usar menos o carro e mais a moto para economizar gasolina”, disse o dentista, de 37 anos, que agora só usa o carro no fim de semana. “Os custos do combustível estão altos demais e eu simplesmente não posso pagar”.

Matos é um dos milhões de brasileiros que reduziram o uso do carro depois que os custos do combustível dispararam a um recorde. Como muitos outros na maior economia da América Latina, ele também luta para se adaptar às oscilações diárias na bomba depois que a estatal Petrobras encerrou uma década de limites ao preço da gasolina.

Essa medida alinhou os preços nacionais da gasolina ao mercado internacional de petróleo. Também equilibrou o mercado para o etanol. A maioria dos motoristas brasileiros dirige carros flexíveis, que podem funcionar com etanol ou com uma mistura de gasolina e biocombustível.

Política impopular

A nova política alegrou a atribulada indústria brasileira de açúcar, a maior do mundo, que produz etanol a partir da cana-de-açúcar. Mas, no geral, ela revelou-se impopular em um país onde a população é quase completamente dependente do transporte rodoviário e onde 21 por cento dos trabalhadores não ganham o salário mínimo mensal de R$ 954 (US$ 253).

A eleição presidencial de outubro poderia trazer mudanças. O candidato que lidera as pesquisas mais recentes, Jair Bolsonaro, diz que o Brasil precisa rever o monopólio da Petrobras. Candidata a favor do meio ambiente, Marina Silva, atualmente em segundo lugar, diz que os preços dos combustíveis não deveriam ser ajustados diariamente. Ciro Gomes, o candidato de esquerda que está em terceiro lugar, quer limitar as margens de lucro da empresa.

“Fixar o preço da gasolina conquistará muitos votos”, disse Jonathan Kingsman, ex-trader e autor de Commodity Conversations, um livro sobre os mercados de commodities agrícolas. “Quem tem certa quantia de dinheiro não se importa com o preço da gasolina, mas, para quem é pobre e está tentando conseguir trabalho, é um verdadeiro problema”.

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O debate ocorre justamente quando o fim dos limites de preço da gasolina impulsionou a demanda por etanol e melhorou as perspectivas para o setor. O consumo subiu 41 por cento neste ano até abril, maior alta em dois anos, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

“O etanol está muito competitivo em relação à gasolina na maioria dos estados brasileiros, com preços 20 por cento superiores aos vistos a um ano”, disse Nick Penney, trader sênior da corretora de futuros e opções Sucden Financial, com sede em Londres.

“A eleição no final do ano e uma mudança na política energética de volta aos ’velhos tempos ruins’ dos preços artificialmente baixos da gasolina são uma ameaça”, afirma.

Indústria de açúcar

A volta dos controles de preços da gasolina seria uma notícia terrível para os produtores brasileiros de açúcar. Embora a demanda maior por etanol tenha ajudado, eles continuam lutando com os preços do açúcar, que estão perto dos patamares mais baixos em uma década. Mais de 80 usinas de açúcar fecharam desde 2008, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Cerca de 30 por cento das usinas restantes enfrentam altos níveis de endividamento, disse Elizabeth Farina, presidente do grupo com sede em São Paulo.

A Bunge, uma grande trader e processadora agrícola dos EUA, disse em 15 de junho que adiou uma oferta pública inicial de sua unidade de açúcar no Brasil devido às condições do mercado. A Cofco International, dona chinesa de usinas brasileiras de açúcar, não fará mais investimentos no Brasil antes das eleições, disse Marcelo de Andrade, diretor global de commodities da empresa.

Além da possível mudança na política de precificação dos combustíveis, o Senado aprovou – em uma tentativa de reduzir os preços – uma legislação que permitirá que as usinas contornem os distribuidores e vendam etanol diretamente para os varejistas. Isso poderia prejudicar o RenovaBio, um programa que foi projetado para aumentar a produção e o consumo de biocombustíveis e que foi bem recebido pela indústria.

A greve dos caminhoneiros que paralisou o Brasil no mês passado já deu à indústria açucareira um gostinho de como a opinião pública pode levar a mudanças rápidas na política. Para conter os protestos, o governo interveio para reduzir os preços do diesel, enquanto Pedro Parente, o chefe da Petrobras que introduziu a política de combustível favorável ao mercado, renunciou.

Para o diretor comercial da Usina Alta Mogiana, Luiz Gustavo Figueiredo, as usinas estão mais vulneráveis após a greve e o mercado verá algum tipo de movimento para reduzir o impacto da volatilidade diária do preço do petróleo na bomba.

"A greve dos caminhoneiros fez mais do que simplesmente interromper a logística por uma semana ou duas", disse Andy Duff, analista do Rabobank International, em São Paulo. "Para o setor de cana, o cenário cada vez mais se parece com a caixa de Pandora".

Isis Almeida e Fabiana Batista
Com tradução adicional novaCana.com

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