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Cana: Safra / Moagem

FCStone espera moagem de cana 4,9% menor em 2017/18 e projeta nova queda para 2019/20

Clima impacta atividades de colheita e mix açucareiro, que deve registrar o menor nível em vinte anos


INTL FCStone - 07 nov 2018 - 11:11

A paralização das atividades de colheita da cana-de-açúcar no Centro-Sul devido às chuvas tem reforçado as expectativas de uma moagem total tímida para a safra 2018/19. A INTL FCStone manteve sua projeção de moagem em 567,0 milhões de toneladas, 4,9% abaixo do mesmo período na safra passada e menor nível de moagem do Centro-Sul desde a safra 2012/13.

Dados compilados pelo grupo mostram que a precipitação média no cinturão canavieiro do Centro-Sul durante o mês de setembro e a primeira quinzena de outubro ficou 172% acima do ano passada e foi 71% maior que a média dos últimos 10 anos. Por outro lado, dados da própria União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) mostram que apenas 15 usinas já haviam encerrado suas atividades de colheita até a primeira metade de outubro, três a menos do que no mesmo período no ano passado.

“Desta forma, podemos dizer que as expectativas de uma ‘morte súbita’ da safra ficaram para trás, sendo que o clima chuvoso deve obrigar várias empresas a estenderem a moagem da safra por mais tempo do que era previamente esperado”, avalia o especialista de mercado da INTL FCStone, João Paulo Botelho.

Por outro lado, as pancadas de chuva vieram tarde demais para recuperar a saúde dos canaviais, levando a INTL FCStone a manter sua estimativa de Toneladas de Cana por Hectare (TCH) para a safra em 71,9 t/ha, 5,4% abaixo da safra 2017/18.

O Açúcar Total Recuperável (ATR) médio, que normalmente apresenta queda de 2% entre a primeira quinzena de setembro e a primeira de outubro, caiu 9% no mesmo período este ano. Segundo análise do grupo, como as chuvas fortes persistiram no final de outubro e começo de novembro, é provável que este padrão se mantenha. Com isso, a INTL FCStone reduziu sua estimativa para o total da safra em 0,4%, para 139,0 kg/t, nível ainda 1,7% superior à safra anterior.

Em relação ao destino da cana, a consultoria espera que apenas 35,1% da cana moída será destinada à produção de açúcar, a menor proporção em mais de vinte anos, caindo em 26,9% na comparação com a safra passada, para 26,3 milhões de toneladas, o menor nível em onze anos.

“Com ATR menor e mais paradas nas operações graças ao clima chuvoso dos últimos meses, ficou mais fácil para as usinas destinarem uma proporção ainda maior da matéria-prima para a produção de etanol. Como a maioria das empresas tem buscado exatamente isso, com o objetivo de aproveitar os melhores preços oferecidos pelo biocombustível em relação ao açúcar, o mix alcooleiro acabou superando nossas estimativas”, explica João Paulo Botelho.

Considerando a conjuntura do consumo de combustíveis no Brasil, a projeção de produção de etanol hidratado de cana da INTL FCStone registrou 20,9 bilhões de litros, 37,3% abaixo da safra passada, e a de anidro de cana para 9,2 bilhões de litros, 11,1% abaixo do ano passado. Com isso, a produção total de etanol no Centro-Sul, incluindo a partir do milho, deve alcançar 30,1 bilhões de litros em 2018/19, 17,7% acima da temporada anterior e o maior volume da história.

Projeção para a próxima safra

Além disso, a redução na área plantada e a idade avançada dos canaviais deve manter moagem pressionada em 2019/20. Segundo a consultoria, a perspectiva é de redução na área disponível para colheita em 0,8%, para 9,03 milhões de hectares. Segundo a estimativa, estes fatores devem mais do que compensar a perspectiva de aumento da produtividade agrícola em relação a 2018/19 (em 0,4%, para 72,1 toneladas por hectare), decorrente da expectativa de clima menos adverso ao crescimento da cana que será colhida em 2019.

Isso oficializa a expectativa da FCStone de redução na moagem para 564,7 milhões de toneladas, 0,4% abaixo da safra atual. “Ao longo da safra 2018/19, segundo dados da Canasat, a área reservada para renovação no Centro-Sul ficou 2,1% abaixo do ano anterior e não foi suficiente para manter a idade média dos canaviais que, segundo nossas estimativas, avançou para 3,8 anos”, explica João Paulo Botelho.

Além disso, a baixa atratividade da cultura canavieira tem levado produtores a optarem pelo plantio de soja nas áreas de reforma, o que muitas vezes leva ao alongamento do ciclo de renovação. Em alguns casos isolados também houve troca de culturas para a oleaginosa.

Apesar de uma possível trégua no clima seco, o ATR médio não deve se beneficiar tanto quanto no ano que se encerra. A INTL FCStone projeta redução em 1,3% na concentração de açúcares, para 137,1 kg/ton. O ATR total, por sua vez, cairia em 1,7%.

Com menor disponibilidade de matéria-prima, a destinação da mesma será essencial para o impacto da próxima safra sobre os mercados de açúcar e de etanol. Ainda segundo visão do grupo, as usinas devem destinar 39,7% da matéria-prima para a produção de açúcar.

“Este patamar é 4,6 pontos percentuais maior do projetamos para 2018/19, mas ainda assim é menor do que todas as demais safras desde 2008/09. Desta forma, a produção de açúcar do Centro-Sul avançaria 11,2%, para 29,3 milhões de toneladas”, avalia.

De acordo com ele, o mercado de açúcar deve começar a precificar seus impactos sobre os futuros do adoçante ainda no primeiro semestre de 2019, com tempo mais do que suficiente para afetar o mix da safra 2019/20 no Centro-Sul.

Quanto à produção de etanol, a consultoria projeta uma redução em 16,7% na produção de hidratado a partir da cana-de-açúcar, para 17,4 bilhões de litros, enquanto a produção de anidro de cana deve crescer 8,9%, para 10,0 bilhões de litros. Já o etanol de milho deve apresentar aumento de 30,5% no volume produzido, para 1,2 bilhões de litros, em grande parte devido à expectativa de que duas novas usinas entrem em operação em 2019. Ainda assim, o analista espera que a produção total de etanol do Centro-Sul caia 7,8%, para 28,6 bilhões de litros.

“Além do menor volume de matéria-prima disponível, também levamos em consideração a expectativa de recuperação no consumo de combustíveis do ciclo Otto conforme a economia brasileira volte a crescer, após vários anos de recessão e estagnação”, resume Botelho.