O inventor que mudou a colheita da cana

inventor transbordo 230913Aos 7 anos, Adelio ajudava o pai na lavoura arrendada pela família na zona rural de Matão, a 304 quilômetros de São Paulo. Era o guia dos animais que puxavam o arado nas roças de milho, arroz e algodão. Forjado na dureza do trabalho manual, filho do imigrante italiano Arthur Antoniosi, o menino cresceu sonhando com máquinas que libertariam o agricultor da pesada lida no campo. Hoje, aos 70 anos, depois de passar boa parte da vida como ferramenteiro, mecânico e projetista de equipamentos agrícolas, Adelio Antoniosi é um empresário bem-sucedido. Fatura R$ 170 milhões ao ano (2012), cresce na casa dos dois dígitos e prepara uma expansão de uma fábrica de 50 mil metros quadrados no distrito industrial de Matão.

O sucesso se anunciou há 15 anos, quando Adelio inventou um tipo de transbordo, a carreta que roda ao lado da colheitadeira de cana picada para levar toletes até os caminhões sem machucar a plantação. Dono da patente do equipamento, ele criou, em 1998, um sistema de alargamento do eixo da carreta e de movimento independente de rodas. Mudou o transporte da cana para fora da roça e reduziu o impacto sobre a soqueira (as raízes que sobram dentro e fora da terra, após o corte da cana, cerca de um palmo acima do solo).

Autodidata na engenharia de máquinas, Adelio percebeu que os transbordos existentes até os anos 90, quando o setor canavieiro se mecanizava rapidamente para atender ao protocolo da colheita sem fogo, amassavam mais a cana porque produziam quatro trilhos - os dois do trator, que puxa a tralha de metal ao lado da colheitadeira, e mais os dois, por fora, da carreta com a carga.

Foi quando ele teve a ideia de alargar o eixo do transbordo de forma que o conjunto todo produzisse três trilhos. Com isso, o equipamento passou a rodar no vão existente entre as fileiras plantadas em intervalos de 1,5 metro. Além de diminuir a quebra, evitou também o endurecimento da terra.

Geometria. "O Adelio resolveu um problema num momento importante da mecanização da colheita", resume o empresário Roberto Malzoni Filho, da Usina Santa Luiza. "A geometria do caminhão não coincidia com a geometria da lavoura", explica. Eram os tempos nos quais usinas, como a de Malzoni, cortavam 20% de cana crua com máquina e o restante caía no podão. Época das famigeradas queimadas, hoje praticamente extintas da colheita. "Ele é o homem que mais entende de equipamentos agrícolas do país. O setor deve agradecer a ele por essa contribuição", declara Malzoni.

Boa parte do conhecimento de Adelio vem do desafio pessoal acalentado por ele desde a infância rural. No empírico caminho profissional, ele se transformou num mecânico de implementos consertando e produzindo máquinas na Baldan, empresa de equipamentos agrícolas de Matão. Ficou lá por 39 anos.

Crise. Um dia, quando já tinha 54 anos de idade e chegara ao cargo de gerente de protótipos da empresa, foi vítima de uma prosaica ferramenta, de uso roceiro tradicional mas muito conhecida também nos departamentos de Recursos Humanos nos últimos anos, a foice (dos custos). Era 1996. A Baldan, em crise, precisou cortar funcionários. Adelio ganhava US$ 5 mil dólares de salário. Foi demitido.

Formado em Contabilidade em 1967, e em Ciências Econômicas em 1970, tinha acumulado experiência com engenhocas de lavoura seguindo o sonho antigo de driblar as agruras da agricultura. Decapitado da empresa àquela altura da vida, depois de ter alcançado um posto de comando de setor de protótipos, e já conselheiro de produtores rurais encrencados com a tarefa de mecanização da roça, estava na rua. Na saída, deixou seu recado: "Vocês estão cortando a cabeça e preservando o rabo!"

A primeira reação do inquieto Adelio foi a de não se entregar. Em 1997, pensou em fabricar uma recolhedora de café. Foi à Itália ver como os seus ancestrais colhiam castanha - e voltou com uma ideia que rendeu 18 máquinas naquele ano para a empresa Orizon, na vizinha Brotas.

Reinvenção. Conhecido na cidade pelo apelido de Morcego, que ganhou quando trabalhava na Baldan por causa do nariz pontudo e dos cabelos espetados - e que até o hoje o diverte -, ele estava insatisfeito e decidiu que era o momento de se reinventar. "Vou trabalhar pra mim", pensou.

No final daquele ano, na periferia de Matão, estrada Via Augusto Bambozzi, alojou-se em dois galpões e um escritório, e transformou em oportunidade a mágoa da demissão após ter se dedicado quatro décadas como empregado. Com a ajuda da mulher, Nadir, mais dois funcionários, criou, em janeiro de 1998, a ATA, Antoniosi Tecnologia Agroindustrial.

Para construir o sonho antigo gastou inicialmente R$ 35 mil da família. Comprou torno, furadeira e maçarico. O resultado imediato foram 300 elevadores para carros de passeio, máquinas para erguer veículos em show room de revendedoras de automóveis. Por esse tempo, foi chamado por Malzoni, que buscava uma solução para as perdas na colheita.

Morcego notou aí que o X da questão estava no espaçamento incompatível das máquinas que trafegavam na lavoura. E desenvolveu o transbordo com o cabeçalho descentralizado. O equipamento foi patenteado no Inpi, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, e virou carro-chefe do voo empresarial de Morcego. "Na primeira máquina investi R$ 22 mil - tudo o que tinha", conta ele olhando os galpões da primeira fábrica. "Se a usina não gostasse, estava perdido", recorda.

Sucesso
Mas a invenção foi um sucesso. A usina não só pagou à vista, como encomendou mais quatro caçambas. Elas recebem a cana picada e transportam o produto para os caminhões enormes, com capacidade para até 70 toneladas por viagem para a moagem. Cada transbordo pode armazenar até 22 mil quilos de toletes. Com pneus especiais, com 80 cm de largura, a carreta tem um sistema hidráulico de elevação que vai a 4,7 metros para despejar os toletes nos cargueiros à beira da lavoura.

O sucesso do transbordo, que tem vários modelos e capacidades de carga, com preços entre R$ 60 mil e R$ 190 mil, deu fôlego para o nascimento de novos projetos também para grãos e laranja.

Hoje a ATA emprega 450 trabalhadores diretos e está em expansão de mais 10 mil metros quadrados de área. Novos equipamentos para cortar chapas metálicas e fabricar peças, a laser, comprados na Alemanha, estão empacotados à espera das novas instalações. Com a capacidade atual, Morcego pode fazer até 13 máquinas por dia.

Ele toca a empresa com os filhos Alex, Adeliane e Angélica, mais a ajuda do gêmeo Adelino, que por andar sempre perto do irmão, ganhou a alcunha de Forro. Claro que, no dia da foice, lá em 1996, sobrou também para Forro - que foi se abrigar na fábrica de Morcego.

Segundo o vereador Agnaldo Navarro (PDT), presidente da Câmara de Matão, "nos tempos da Baldan, Forro mandava mais do que o Morcego". Navarro lembra que Forro era "o vereador da Baldan".

Na semana passada, na fábrica à beira da Rodovia Brigadeiro Faria Lima, na entrada da cidade, que tem 77 mil habitantes e PIB de R$ 5,8 bilhões, o industrial Morcego caminhava pelo pátio apresentando cada um dos inventos como indivíduos quase exclusivos. Lá estão a distribuidora de torta de filtro (adubação), os caminhões e julietas adaptados com o famoso transbordo basculante, além do canterizador e da nova vedete de Morcego, a plantadeira computadorizada. Estas duas últimas produzidas em parceria com a gigante norte-americana de máquinas e tratores John Deere, que tem mais de 200 pontos de vendas no Brasil.

"Temos um contrato de exclusividade no fornecimento de implementos agrícolas com a John Deere", diz Alex Antoniosi, diretor da ATA, filho de Adelio. "Toda a rede de concessionários fica fidelizada e apta na comercialização dos nosso produtos que saem com a marca Green System", explica. De acordo com o diretor, a ATA planeja fechar 2013 com faturamento na casa dos R$ 200 milhões.

Referência. "Agora vamos cobrir todo o processo: irrigação, plantio e colheita", planeja Morcego. "O nosso segredo está em muito trabalho, em dedicação ao que se gosta e se sabe fazer", ensina o empresário que, segundo funcionários, é o primeiro a chegar e o último a sair da fábrica. "O cliente traz o pedido e a gente segue a necessidade dele", reforça o ex-mecânico.

O que pode parecer um clichê de vendedor, na verdade, é mais do que isto. As máquinas dele são criadas a partir de detalhes fornecidos pela encomenda, como ocorreu com o transbordo.

Habituado a moldar tudo na vida de acordo com a necessidade, é referência para palestras sobre empreendedorismo na região. "O grande lance hoje na agricultura não é abrir fronteira, mas produzir mais com o que se tem, inovando", costuma dizer.

Amante da pizza e da macarronada, Adelio Morcego gosta de adaptar até o cardápio. Além das pastas italianas, herança do sangue de velho Arthur, encara numa boa uma churrascaria. E, claro, não rejeita uma legítima "morcilla" argentina.

Pablo Pereira

Comentários  

0 Nazareno Manella 1 ano 6 dias atrás

Parabens pela reportagem.Adelio Antoniosi exemplo de dedicação e amor ao trabalho.Progrediu através de seu merito e por isso deve ser usado como exemplo aos nossos jovens,isto é empreendedorismo.

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0 fernando j almeida 1 ano 6 dias atrás

Boa tarde. Não entende do plantio e beneficiamento de cana, mas entendo um pouco do ser humano. Parabenizo o Sr. Adelio "Morcego" pela sua sagacidade e pelo seu espirito empreendedor. Claro, sem falar na sua tenacidade para conquistar com seu suor e inteligencia um "lugar ao sol", tanto para si como para as pessoas queridas que o cercam.
Cordiais saudações,
Fernando J Almeida
Real Estate Broker
CRECI 60167 RJ

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0 GILBERTO ORLANDI 5 meses 1 semana atrás

Quero parabenizar o Adelio Morcego, trabalhamos juntos na Baldan em Matão, realmente o Adelio é uma pessoa simples mas muito inteligente, tenho certeza que ele vai desenvolver muitos equipamentos para o setor canavieiro. Parabéns para você e toda sua família.

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