Açúcar em baixa? Seis fatores que podem trazer novo otimismo para os preços

Ainda que muitos analistas tenham passado a prever um excedente de produção em 2017/18, participantes da Dubai Sugar Conference apontaram indicadores que podem “estragar a festa” dos baixistas

Em busca de um açúcar mais barato, os compradores que estão na expectativa de um retorno do superávit na produção para a próxima temporada talvez devam reconsiderar suas apostas.

Embora a maioria dos analistas preveja que a produção excederá a demanda na safra global 2017/18, os estoques devem permanecer em níveis historicamente baixos. Ao menos, essa é a visão do chefe de açúcar e etanol e conselheiro de fundos de hedge da Tropical Research Services, Sean Diffley. “[Os estoques] permitem pouca amplitude de desempenho [para variações de volume produzido] nos principais países produtores de açúcar”, adverte.

Com oito meses pela frente até a nova temporada, que começa em outubro, ainda há muito para acontecer que pode frustrar a previsão de 1 milhão a 3 milhões de toneladas excedentes previstas por analistas de instituições como TRS, F.O. Licht, GmbH e Kingsman, da S&P Global Platts.

“O mercado está olhando para uma série de planilhas de balanço disponíveis que trazem essas construções de melhores cenários”, afirma o diretor comercial da Sucden, Michael Gelchie. “Mas ainda há uma grande variabilidade climática a ser considerada e o mercado não tem os estoques domésticos para lidar com outro grande evento meteorológico”, acrescenta.

Do retorno do El Niño, passando pela definição das importações indianas e chegando às políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os participantes da Dubai Sugar Conference listaram seis principais preocupações fundamentais do mercado de açúcar.
Esses são os fatores que podem “estragar a festa” dos compradores, que acreditam que um excedente de açúcar na próxima temporada mundial trará redução dos preços.

1| Clima: a volta do El Niño

Menos de um ano após o fim de um dos mais fortes El Niños que se tem registro, que levou clima seco e estragos para as culturas na Ásia, os meteorologistas já estão prevendo o seu retorno.

Os modelos climáticos que sugerem condições neutras ou a ocorrência do El Niño são os mais prováveis para o período inverno-primavera no Hemisfério Sul, informou o bureau de meteorologia da Austrália em janeiro. Na mesma linha, o Centro de Previsão do Clima dos Estados Unidos divulgou que as probabilidades de que o padrão meteorológico se forme até o final do ano agora são de 50% – acima de uma classificação anterior de 36%.

“Os modelos estão sugerindo que o El Niño pode ressurgir no segundo semestre de 2017”, afirmou a analista da JP Morgan, Tracey Allen. Ela continua: “Há grandes expectativas de que a produção asiática vai se normalizar este ano e isso está relacionado diretamente com as monções. Esse também é um ponto crucial para a produção de açúcar e para a transição de um saldo neutro a um excedente na temporada 2017/18”.

Em resumo, com o retorno no fenômeno, a produção asiática ficará novamente ameaçada, atrapalhando as perspectivas de um excedente. Com menos açúcar, o preço voltaria a subir.

2| Brasil: moeda valorizada

No Brasil, maior produtor mundial de açúcar, o Real está ficando mais forte, o que reduz potencialmente o incentivo das usinas para a venda de açúcar. A preocupação internacional é que, com a menor vantagem em relação ao dólar, os níveis de preços passem a favorecer o etanol.

O Real se valorizou 22% em 2016, o maior índice desde 2009, e já avançou 4,4% em 2017. “A recente força do Real também é um fator muito interessante para o futuro porque a maior parte dos analistas antecipou uma taxa de câmbio ligeiramente mais fraca do que a que temos hoje”, afirmou Tracey Allen, da JP Morgan.

Ela também analisa as opções das usinas brasileiras: “Podemos muito bem ver um mix de açúcar semelhante em 2017/18, mas isso está baseado na força esperada para os preços do petróleo bruto e na possibilidade de que os preços da gasolina doméstica continuem a subir em linha com os preços do mercado mundial”.

3| Índia: recuperação incerta

Os baixistas estão contando com a recuperação da produção na Ásia. Mas a escala de recuperação na Índia ainda é incerta, em razão da escassez de água no último verão no estado de Maharashtra, o que limitou o plantio da cana de 18 meses.

O comentário é do diretor de pesquisa da LMC International, Gareth Forber. “Além disso, a água ainda é um problema em Karnataka, por isso, a produção pode não se recuperar nesta parte do país”, disse ele.

Outro fator que pode triunfar sobre os baixistas está nas importações indianas. A nação sul-asiática pode continuar a adquirir açúcar na temporada 2017/18 com o objetivo de repor os estoques apertados, assinalou o analista da trader de commodities ED & F Man Holdings, Tom Secretan.

4| Estados Unidos: efeito Trump

Os negociadores de açúcar participantes da conferência estão preocupados com as incertezas geradas pelas políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A principal delas envolve a revisão do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), buscada pelo novo presidente norte-americano.

O acordo facilita a entrada do açúcar mexicano nos Estados Unidos. A longo prazo, essa incerteza pode reduzir os incentivos para que os produtores mexicanos continuem investindo na produção de açúcar. Mais uma vez, esse é um elemento que pode reduzir os níveis mundiais de produção, atrapalhando a expectativa de um excedente.

5| União Europeia: fim das cotas

Os compradores de açúcar também estão contando com o reflexo do fim do sistema de cotas de produção na União Europeia, que acontece em 30 de setembro. A Kingsman projeta que a produção deve subir 14%, atingindo 19,3 milhões de toneladas. Já o diretor da Suedzucker, maior produtora de açúcar do bloco, Markus Neundoerfer, é ainda mais otimista e afirma que o total pode chegar a 20 milhões de toneladas.

O fato de os preços terem subido 28% em Nova York no ano passado – atingindo os maiores níveis desde 2009 – incentiva essa perspectiva de que produtores aumentarão o plantio. Entretanto, as beterrabas que serão cultivadas para a próxima temporada ainda não estão no chão, o que faz com que não exista uma precisão sobre qual será a estratégia dos produtores.

6| China: dúvidas sobre importações

“As importações chinesas podem ter um aumento surpreendente”, afirma o diretor de operações da RCMA Commoditites Asia, Jonathan Drake, que também é ex-chefe do departamento de açúcar da Cargill.

A nação já espantou os negociadores no ano passado, adquirindo 3,7 milhões de toneladas de açúcar branco, mesmo com seus estoques elevados. “Todos subestimaram o país no ano passado”, disse Drake e acrescenta: “É extremamente lucrativo importar para a China”.

Isis Almeida – Bloomberg
Tradução e adaptação novacaCana.com

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