Açúcar: Mercado

Acordo para reduzir açúcar nos alimentos apenas adoça opinião pública

Empresas não serão obrigadas a aderir às metas acordadas entre Ministério da Saúde e indústria


Folha de S. Paulo - 05 dez 2018 - 08:59

Por Maria Inês Dolci*

O acordo entre Ministério da Saúde e indústria para reduzir a quantidade de açúcar nos alimentos e bebidas industrializados, desculpem o trocadilho, somente adoça a boca do consumidor e da opinião pública. Continuará cabendo a nós selecionar muito bem o que comemos para não consumir excesso de açúcar, especialmente aos pais de crianças e de adolescentes.

A meta de cortar 144 mil toneladas de açúcar destes produtos nos próximos quatro anos parece relevante, mas considera o teor máximo em cada item. Por isso, a quantidade, muitas vezes, ficará na média atual do mercado. Além disso, as indústrias não serão obrigadas a aderir, pois o acordo prevê participação voluntária.

Nem precisaria enfatizar que açúcar demais é fator primordial de doenças como diabetes. Também é uma das causas da obesidade e das cáries. Até porque praticamente tudo o que vai à mesa de refeição tem açúcar, mesmo que não seja adicionado na produção nem no preparo. Consumimos diariamente frutose (frutas), lactose (leite e derivados), sacarose (extraído da cana de açúcar e beterraba), amido (batata, arroz, trigo), entre outros.

Além disso, parte dos alimentos ultraprocessados contém alto teor de açúcar, como são os casos de doces, sorvetes, refrescos, biscoitos recheados, achocolatados, refrigerantes etc..

Excessos de gordura, sal e açúcar estão dentre os principais agentes das doenças e do envelhecimento precoce. O costume de adoçar tudo vem da infância, e é raro encontrar alguém que não goste de doces, balas, bolos, biscoitos e refrigerantes.

Da mesma forma, temos péssimos hábitos relativos ao sal. Muitas pessoas, por exemplo, ainda usam o saleiro com vigor para temperar batatas fritas já condimentadas.

Antes, talvez não nos preocupássemos tanto com isso porque vivíamos muito menos. A expectativa de vida dos brasileiros aumentou mais de 30 anos entre 1940 e 2016.

Mas viver mais implica em cuidados nos hábitos diários. Dieta saudável e equilibrada, exercícios físicos regulares e boas horas de sono não são opcionais para quem pretenda aproveitar bem os anos a mais de que dispomos.

Salgar e adoçar os alimentos são obstáculos à vida mais longa. A boa notícia é que, com ou sem acordos efetivos para reduzir o percentual de sal, gordura e açúcar em alimentos e bebidas, já nos demos conta de que devemos controlar o consumo destes itens.

* Maria Inês Dolci é advogada especialista em direitos do consumidor, foi coordenadora da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste)