Trader gasta US$ 2,3 bi para comprar 6 mi de toneladas de açúcar em dois anos

A Wilmar International, que conta com a participação da Archer Daniels Mindland, é relativamente nova no segmento, mas já cria "confusão" no mercado de açúcar

Um novo poder no comércio de açúcar está comprando quantidades sem precedentes do adoçante na bolsa de futuros dos Estados Unidos e criando ‘confusão’ em um dos mercados de commodities mais voláteis do mundo. Trata-se da Wilmar International, trader de agronegócio com sede em Singapura, cujos principais acionistas incluem a família do bilionário malaio Robert Kuok e a Archer Daniels Midland Co., companhia de Chicago.

Fundada há 26 anos, a Wilmar é uma das maiores produtoras mundiais de óleo de palma, mas é uma recém-chegada no mercado de açúcar.

Na última semana, a companhia concordou em comprar US$ 512 milhões em açúcar bruto no vencimento de um contrato de futuros na bolsa.

A Wilmar está estocando açúcar, liquidando dezenas de milhares de contratos futuros e coletando mercadorias de portos da América do Sul e de outros lugares. A empresa comprou mais de 6 milhões de toneladas de açúcar desta forma desde 2015 – o suficiente para encher cerca de 3 mil piscinas de tamanho olímpico – a um custo de cerca de US$ 2,3 bilhões.

Os efeitos das transações da Wilmar têm sido objeto de debate entre os demais traders desse mercado. Em um certo momento em 2015, quando os preços do açúcar estavam baixos há muitos anos por causa do excedente mundial, a Wilmar comprou tanto que os comerciantes dizem que a empresa, em efeito, deve ter absorvido o superávit global do ano em questão. No rali que se seguiu, os preços do açúcar mais que dobraram.

Logo, como os preços atingiram o pico em setembro do ano passado, a Wilmar mudou de rumo e entregou o excesso de açúcar que possuía para outros comerciantes na bolsa. Os preços do açúcar caíram 24% nos meses seguintes.

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"Todo mundo estava olhando para eles", afirmou o gerente de açúcar e etanol da corretora INTL FCStone no Brasil, Bruno Lima. Na semana passada, comerciantes e analistas ponderaram sobre a última compra da Wilmar e se essa foi um sinal positivo para a demanda de açúcar. Os preços subiram desde então.

A Wilmar, que entrou no mercado de açúcar em 2010, possui plantações de cana-de-açúcar, usinas e refinarias de açúcar, especialmente na Ásia. A companhia também comercializa açúcar internacionalmente – compra o adoçante bruto e o vende para refinarias em todo o mundo. No ano passado, a empresa lidou com 13,5 milhões de toneladas de açúcar, cerca de 8% da produção mundial. Alguns analistas dizem que a Wilmar é possivelmente o maior comerciante de açúcar do mundo.

O tamanho e a escala da empresa, no entanto, estão gerando preocupações. Alguns traders alertam sobre a capacidade de a empresa controlar uma grande quantidade de açúcar negociável do mundo e influenciar nos preços.

Jean-Luc Bohbot, o francês de 48 anos que gerencia os negócios de açúcar da Wilmar, afirmou que não há evidência de que as negociações da companhia afetem os preços do mercado. “[Essa é] uma visão muito incorreta”, disse em uma entrevista recente. “O açúcar é uma commodity muito fragmentada, com uma grande quantidade de players pelo mundo”, completa.

Embora as compras e vendas de açúcar da Wilmar pareçam, em alguns casos, ter previsto as subidas e descidas de preços, Bohbot garante que não existe uma correlação clara entre as duas coisas. Ele ainda acrescenta que, ao longo das últimas décadas, os preços do açúcar já foram em ambas as direções em casos onde houveram grandes entregas.

Muitos produtores, consumidores finais e especuladores usam os contratos futuros da commodity para calcular os riscos de fixação ou fazer apostas direcionadas de preços. Os futuros são frequentemente usados como guias para a precificação nos mercados físicos, onde há entrega real de commodities.

Entregas físicas para negociadores de futuros, no entanto, são raras. A operadora de câmbio Intercontinental Exchange estima que menos de 0,5% das negociações resulte na entrega real de commodities. A maior parte dos contratos de futuros são redirecionados pelas traders antes de sua expiração porque muitas empresas querem evitar os incômodos de lidar com o transporte das commodities. Com os futuros de açúcar, os compradores não sabem onde no mundo eles terão que buscar o adoçante até depois da expiração do contrato.

Mas isso não impediu a Wilmar. Segundo Bohbot, a companhia descobriu que é mais econômico comprar açúcar em grandes quantidades usando contratos de futuros porque as regras comerciais exigem que os vendedores entreguem o açúcar nos navios dos compradores, o que facilita o comércio internacional. Em outros mercados de commodities, como grãos ou metais, a entrega geralmente acontece nos armazéns, em localizações que nem sempre são facilmente acessíveis.

De acordo com Bohbot, a Wilmar envia e vende a maior parte do açúcar bruto para refinarias na Ásia e no Oriente Médio, onde o consumo está crescendo. Esse tipo de comércio, entretanto, dificilmente costuma ser lucrativo quando transporte e outros custos são contabilizados. “Há uma margem muito pequena e, às vezes, nenhuma margem”, afirma.

Em 2016, a divisão de açúcar da Wilmar registrou um aumento de 33% na receita, chegando a US$ 5,9 bilhões – o que foi considerado pela empresa como “um excelente conjunto de resultados”. Ainda de acordo com a companhia, o resultado foi possível em parte devido ao aumento dos preços do açúcar. A Wilmar ganhou US$ 125 milhões no segmento do adoçante no ano passado, com uma margem de lucro de 2,1%.

A companhia entrou no mercado de açúcar por meio de uma aquisição no valor de US$ 1,5 bilhão do maior produtor de açúcar da Austrália. Em seguida, contratou Bohbot, que possui uma longa carreira no mercado de açúcar. A Wilmar tirou o executivo de uma companhia rival e lhe deu a missão de expandir o negócio do açúcar internacionalmente.

Além disso, a Wilmar fez muitas aquisições e entrou em joint ventures com produtores de açúcar e refinarias em países como Indonésia, Mianmar, Índia e Marrocos. No ano passado, a empresa ainda formou um novo empreendimento com um grande produtor de açúcar brasileiro – uma medida que provavelmente deve aumentar o volume de açúcar comercializado pela companhia.

Frank Jenkins, presidente da Jenkins Sugar Group, uma trader de Connecticut, afirma que a compra em grande escala da Wilmar no mercado de futuros "é um sintoma do crescimento de seus negócios".

Carolyn Cui e Serena Ng - Wall Street Journal
Tradução e adaptação novaCana.com

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