Perspectivas do etanol no mercado de combustíveis para veículos leves

Uma ampliação significativa da produção de etanol combustível no Brasil poderia constituir um projeto nacional desenvolvimentista. De fato, uma série de fatores pode favorecer essa hipótese:

  1. A escalada dos preços do petróleo, que melhora a competitividade do etanol face à gasolina;
  2. A redução das emissões de gases de efeito estufa proporcionada pelo uso do etanol proveniente da cana-de-açúcar para substituir gasolina;
  3. A grande disponibilidade de terras aptas para o cultivo da cana no país (o que inclui a recuperação de áreas de pastos degradados), sem necessidade de avançar sobre os principais biomas naturais remanescentes, em particular Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica;
  4. A elevada produtividade, em termos de energia de biomassa por unidade de área, apresentada pela cana-de-açúcar e que ainda pode ser melhorada consideravelmente com o incremento do aproveitamento energético do bagaço e da palha;
  5. O fato de que tecnicamente, não há restrição ao uso de uma mistura de até 10% de etanol (E10) à gasolina utilizada nos atuais veículos;
  6. A expectativa de relaxamento das barreiras protecionistas ao etanol nos países industrializados e a expansão da produção nos países do trópico úmido, o que pode facilitar a criação de um mercado internacional para o etanol combustível, tornando-o uma commodity;
  7. Os benefícios socioeconômicos advindos do efeito multiplicador do crescimento do setor, em função de sua ligação com toda a cadeia produtiva da economia, trazendo impactos expressivos na geração de emprego e renda.

Com efeito, com o objetivo de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, vários países têm incrementado o uso de etanol em sua matriz energética, seja para adicioná-lo diretamente à gasolina, seja para a fabricação de oxigenante. Destacam-se, especialmente, os programas de muitos países que fixaram metas de participação de biocombustíveis em suas matrizes em prazos inferiores a 20 anos.

O consumo mundial de gasolina foi de 1,22 trilhão de litros em 2006 (IEA, 2009), e estima-se que em 2025 deverá ser de 1,70 trilhão de litros. Em um estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos da Unicamp (CGEE), foram examinadas as condições necessárias para que o Brasil atenda à demanda mundial de etanol de cana-de-açúcar, para substituir 10% do consumo global de gasolina em 2025, o que corresponderia a uma produção de 205 bilhões de litros de bioetanol ao ano e requereria uma área adicional de 24 Mha para cultivo da cana, área pouco superior à ocupada com soja atualmente (20,6 Mha em 2007) e equivalente a pouco mais de 10% da atualmente destinada a pastagens.

Oportunidades para o etanol como combustível

Há poucos exemplos na história da humanidade, e do Brasil em particular, de uma conjuntura de tantos fatores convergentes favoráveis a um projeto nacional desenvolvimentista, como é o caso da expansão da produção de etanol combustível. Dentre inúmeros fatores favoráveis, podemos destacar:

  1. Aumento dos preços do petróleo no mercado internacional que, mesmo exibindo um comportamento oscilante, tem caráter estrutural, como consequência da aproximação do pico de produção do petróleo e da crescente pressão sobre a demanda exercida principalmente pelos países emergentes. O consumo mundial de gasolina aumentou 15,9% entre 2000 e 2005, e o consumo mundial de petróleo aumentou 12,0% entre 2000 e 2007, com China e Índia apresentando crescimentos de 57,7% e 31,6%, respectivamente (EIA, 2009);
  2. O progressivo reconhecimento em todo o mundo das consequências ambientais devidas ao aquecimento global e sua correlação com o consumo de combustíveis fósseis. Esta conscientização é reforçada por inúmeras observações atuais, como a retração de geleiras e neves permanentes em toda a crosta terrestre (inclusive da Groenlândia), assim como das calotas polares sul e norte, os Alpes, o Complexo do Himalaia, etc. Além disso, um número crescente de especialistas afirma que o aumento da gravidade de catástrofes climáticas, como ondas de calor, furacões, ciclones, inundações, secas, etc., (intensidade por um fator de 6 de 1970 a 2005, e de frequência de 2,5 a 3 no mesmo período) é consequência do aquecimento global. Assim, cresce a convicção em toda a sociedade de que alternativas aos combustíveis fósseis devem ser buscadas com urgência;
  3. Os custos de produção do etanol combustível produzido a partir da cana-de-açúcar vêm caindo sistematicamente e já é competitivo com a gasolina, com o preço do petróleo em torno de US$ 50 o barril; em contrapartida, as projeções para o preço de importação do petróleo da International Energy Agency (World Energy Outlook 2008) indicam valores superiores a US$ 100 o barril (referentes a 2007) a partir de 2020, o que tornaria o etanol ainda mais competitivo;
  4. Em 2005, a área ocupada com cana no Brasil era de 5,8 Mha, com soja, 22,9 Mha, e a área usada para pastagens era de 197,0 Mha (FAO, 2008). Em relação ao mesmo ano, de acordo com os dados do IBGE (2008) e da FAO (2008), o valor da produção de cana-de-açúcar, álcool e açúcar por hectare de cana plantada foi de R$ 9.100; o valor da produção da soja, óleo de soja e farelo, por hectare plantado de soja, foi de R$ 2.100; e o valor da produção do gado de corte, da produção de leite e do abate foi de R$ 400 por hectare utilizado de pasto. Nos valores apresentados, a cana-de-açúcar e seus principais produtos têm nítida vantagem em termos do valor da produção por hectare cultivado, revelando-se uma opção preferencial em termos econômicos;
  5. Outros grandes países também produtores de etanol de cana, tais como Índia e China, apesar de menos competitivos por causa do clima (regime de chuvas, temperatura, etc.) ou da qualidade e da disponibilidade de solo, estão realizando presentemente ingentes esforços para ampliar suas produções. Essas iniciativas, assim como a mobilização do potencial produtivo dos cerca de 130 países produtores de cana-de-açúcar, certamente poderão contribuir para a formação de um mercado internacional de etanol, de maior interesse para o Brasil, em função do seu avanço tecnológico e de suas vantagens comparativas no tema;
  6. O etanol de cana-de-açúcar é atualmente a opção de biomassa energética de maior produtividade por unidade de área e de melhor balanço energético, que é a razão entre a energia que sai na forma de produto (etanol e energia mecânica, térmica e elétrica) e a energia fóssil consumida na cadeia produtiva. Enquanto o etanol de milho produzido nos EUA apresenta um balanço energético entre 1,2 e 1,4, o de cana-de-açúcar é superior a 8. A despeito dessa produtividade e balanço energético já elevados, pode-se esperar, ainda, significativo avanço nesses indicadores por dois motivos:
    1. Em primeiro lugar porque, até o presente, apenas uma parcela do bagaço excedente é aproveitada, com baixo rendimento, para fins energéticos (por exemplo: cogeração) e, em segundo lugar, porque a palha ainda não é aproveitada para fins energéticos, o que corresponde ao desperdício de um terço da energia primária de cana; com efeito, para a produção de 493 milhões de toneladas de cana na safra 2007/2008, a energia primária total da cana seria equivalente a 1,7 milhão de barris/dia e a parte da palha corresponderia a 580 mil barris/dia (30% da produção nacional de petróleo), esta última totalmente inaproveitada;
    2. Ademais, as variedades atualmente em uso foram desenvolvidas para produzir açúcar e não energia, o que permite supor que uma reversão de objetivos possa aumentar a produtividade para o etanol. Tecnologias de 2ª geração (hidrólise, gaseificação e pirólise) poderão aumentar a eficiência de conversão energia solar-energia química do etanol, dos atuais 0,5% para algo próximo a 1%.

Com tantos fatores favoráveis, é possível conceber uma expansão significativa da produção de bioetanol no Brasil como uma oportunidade de desenvolvimento socioeconômico nacional com impactos particularmente favoráveis nas áreas rurais. A avaliação efetuada neste estudo permitiu identificar uma disponibilidade de terras férteis, desimpedidas do ponto de vista legal e ecológico, com declividade e intensidades pluviométricas adequadas para a cultura canavieira mecanizada, de aproximadamente 90 Mha, sem invadir áreas destinadas ao cultivo de alimentos. Naturalmente que essas considerações servem apenas para aquilatar as potencialidades extremas dessa opção desenvolvimentista. Assim, o cenário analisado neste estudo, de substituir 10% da gasolina do mundo por etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil, que demandaria uma área plantada de 25 Mha, é perfeitamente realista do ponto de vista de nossa capacidade produtiva, muitas vezes superior à necessária para atender a tal cenário.

Dando continuidade a avaliação dessas perspectivas, veja a projeção de crescimento da demanda de gasolina para 2025 e o mercado potencial do bioetanol.

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